segunda-feira, 30 de março de 2009

Monstro



Há um monstro
Na lajota
No ladrilho
No telhado

Há um monstro nesse prato
No copo
No sexo
Na cápsula de pólvora
Medicamentosa

Há um monstro em cada um
E um monstro em toda esquina

E se a mente finge que manda
O monstro finge que perde
E que morre
Mas está ali
Grande

Forte

Esperando
Você se esquecer dele

domingo, 29 de março de 2009

Nenhum Parque de Diversões

Abramos espaço para o fluxo:

Preocupação
Um que vive, quer o outro vivendo
Bem
Feliz
Em igualdade de condições

Dentro de algum egoísmo

"Você vive, e está bem"

Com isso, não passa a frente de ninguém

Preocupação como lei
Como elo entre seres sem elo algum?

"Viva como eu, seja feliz como eu sou"
Puta que pariu, caralho

O caminho não é tão simples
Não é tão pacífico
É bonito, é verdade
Mas preocupantemente torto

Então fique em paz
E nem lembre mais do outro
E não busque que essa felicidade toda
Seja o meu parque de diversões diário

sexta-feira, 27 de março de 2009

A Escada do Sol

Letra: Marcio Teixeira de Mello

Fale a verdade: você não leva isso a sério
Deixa a ambição fazer a grande parte dela
Sinto que não dá para abrir mão do meu nome
A escada do sol e o elevador da fome

Claro que inventa a sua vida e com dois ou mais
Determina as regras

Nada disso tem sombra
O real me assombra
Se é real, me assombra

Comigo não tá
A chance de viver
Virou um vazio
Comigo não tá
Não sei onde ela está
Mas não está mais frio

Depressão/reimpressão
Propagando uma palavra que não é minha
Planos de aniquilação inacabados
Mostrando a liberdade que eu tinha

quinta-feira, 26 de março de 2009

O que é feito de?



O que será que faz?
O que é que fez?
Será que em drogas pesadas?

Se livrando ou mergulhando de vez?

No que anda pensando?
Mas será que ainda pensa?
Estaria em um hospício?
Ou feito como o outro em vício
e pulado de um penhasco
para se enganchar em um piedosa árvore?

Será que anda pichando ruas?
Estuprando mendigas, deixando velhas nuas?
Será que atira a esmo ao invadir shoppings?
Ou congela rios durante provas de rafting?

Já teria viajado o mundo?
E teria sido achado imundo
com os olhos virados pra dentro
vendo apenas o que precisa(va) ver?

Cordeiro

Sendo, alma e paixão indivisíveis
Vendendo: bem-vindas derrotas invisíveis

Álcool reacorda o corpo limpo
Desinfeta a calçada, extrai o limo

Limusine interna
Cabeça-caverna
Nada mais belo do que se aproximar
Como faz um cordeiro no ar

Sacrifício de cada um
Sem danças, sem bem comum
Tudo é possível quando dá

terça-feira, 24 de março de 2009

Isso Pode Viver

Letra: Marcio Teixeira de Mello

Um lago sem som
Um tempo sem qualquer ar
Mas você segue sendo como deve ficar
Passei algum tempo em um passo no mar
Mas ninguém sabe se é hora de escapar

Isso pode viver
Isso pode voltar
Nisso ele irá crer
Após uma volta

E tudo se acaba assim tão fácil
Mas não é isso que nos faz chorar
Tudo é muito, muito frágil
E eu não sei onde você está
Quem disse que se ajoelhe
Levante e voe já
Querem estragar sua cabeça
Querem te estragar
Sou o sol do meu cenário
Não estou em lugar nenhum

Por isso
Tudo isso
Tudo isso de você

segunda-feira, 23 de março de 2009

Asa a cobra


Eu não posso ter dinheiro. Quando tenho, dou. Ou gasto fácil. É a história de Deus não dar asa a cobra. Imagina se desse? Ok, imagina que exista um Deus lunático, preocupado com bizarrices como a anatomia dos répteis. Um Deus que gasta seu tempo pensando em itens que podem ou não podem ser grudados nas costas de uma cobra, por exemplo. Então esse Deus poderia ter resolvido, após muito estudo e entrevistas com especialistas, que cobras deveriam voar. Vá entender os motivos. Talvez elas colaborassem para o controle da população de pombos nas cidades, ou de morcegos no campo, ou de mosquitos na praia. Cobras não parecem ser fãs de mosquitos. Pronto. Cobras teriam asas. E voariam felizes. E apareceriam nas varandas de grandes prédios, e, em função disso, existiriam diversos inseticidas no mercado voltados ao extermínio dos pobres bichos peçonhentos. Tudo bem, não seriam inseticidas, mas cobricidas. Homicidas. Cobras voariam e quebrariam o silêncio de quartos fúnebres com o chacoalhar de seus chocalhos. E esse seria o som do medo e da graça. Cobras voariam e se enroscariam em lençóis e pernas em cópula. Mulheres dariam luz a meninos-serpente. Isso se Deus desse asa a cobra. Mas sei que a cobra também não dá asa a Deus.

Deus que é pai de Jesus. Jesus que é pai de muita gente. Deus seria o avô se ele e Jesus não fossem a mesma pessoa. Dupla personalidade. Tripla, com o espírito santo, que dizem ser uma pomba. Pelo que dizem, seria uma pomba gigante, de penas grossas, já amareladas. Velha e feminina. Um deus-pássaro mitológico, pagão talvez, saído de um grande e escuro ovo de ouro. Talvez filho e avô da galinha dos ovos de mesmo valor. Não importa tanto. Vejo o mundo do século XXI e enxergo o passado. As idéias, as roupas, os desejos, tudo é muito antigo. Datado. Cansativo. Folclórico de tão ingênuo. E há a força, a forca e a crença. No deus branco chamado Jesus Jones de Nazaré. Aqui e agora, executivos e mendigos debatem a Bíblia. Discutem a glória e a subida aos céus no terceiro dia. Lembram-se do pães, dos peixes e de longas caminhadas em cidades de nomes já devidamente aportuguesados. A palavra, conhecem desde sempre, por influência de pais, avós, tios, escolas. Por influência da tv, dos mocinhos e bandidos. Fé em Deus, DJ. Graças a Ele conseguimos os três pontos. Amar quem pode lhe ferir pode ser uma boa estratégia. Amar o céu por medo de que ele desabe. Como bem disse Jóbson, que tentou me evangelizar durante o Mundial de Clubes de 2000, no qual trabalhei, se o Maracanã cair, ele, lá dentro, sabe que se salvará. Claro, pois aceitou Jesus como seu senhor e salvador pessoal. Duvidei dele, que riu. Perguntou se eu não sabia que Deus havia criado o mundo em seis ou sete dias. Gargalhou quando lhe falei sobre microorganismos, pressão atmosférica e outras palhaçadas.

Pois ele credita suas vitórias à sua fé no divino. Acabo ignorando tais vitórias, conseguindo pensar que talvez ele tenha fé pra caralho. Ou seja cego. Criativo. Louco. Foda-se. Não ganharei nada com ofensas às crenças alheias. Mas, cara, não se deixa o mal em paz...

domingo, 22 de março de 2009

Em Cada Frase

Letra: Marcio Teixeira de Mello

Na realidade
Estou cansado de fingir
A neutralidade é um carro que não dá pra dirigir

Meu caminho é reto
Mesmo sendo
Transparente
Só passou perto do seu
Esqueça o meu daqui pra frente

Drama em cada frase
A besteira travestida de experiência
Sinto muito, mas não tenho paciência

sexta-feira, 20 de março de 2009

Eu Não Me Interesso

Letra: Marcio Teixeira de Mello

Aliene-se, irmão
Eu não me interesso
O cheiro da água

Suspiro de desespero
De olho na gengiva de alguém

Aguardando e fingindo que dança
Hoje
Na areia movediça
Nada veio

Você não será uma ameaça
Ao meu sangue inútil
Eu não me interesso
Posso te dizer
Que pode não valer

E nem me assustar

quinta-feira, 19 de março de 2009

Gato Preto


Ontem à tarde, na rua, vi uma menina com uma tatuagem que me fez rir. Na pele, um gato preto de presas visíveis, com um número "13" à cabeça.

Lembrei imediatamente do meu amigo Hector.

Hector é um gato que vive aqui em casa. Carinhoso a ponto de dar cabeçadas na minha cara em busca de um afago. Ou de leite, que poderia sair do meu nariz. Vai entender a cabeça de gatos desmamados. Cabeçadas que podem ser dadas no copo de suco que levo à boca, e que, depois da investida do meu amigo, quase quebra meus dentes da frente. Carência brutal.

Pois Hector, um gato preto preto preto, até o última sexta-feira 13 se chamava Satanás. Um nome que fazia nosso bicho ser uma espécie de piada semi-ofensiva ambulante. Ou um amaldiçoado. Ou um protegido de e por forças invisíveis.

O fato é que nesse dia, Satanás, em um surto de "tudo é possível", tentou ir da área de serviço para a cozinha de nosso apartamento através de uma janela, ignorando o fato de que a fresta da mesma era alta e estreita demais para que seu pequeno corpo pudesse passar. Não conseguindo enfiar a cabeça, tentou as patas. As duas. Que se soltaram. Satanás, o gato preto, caiu da janela. Som de corpo contra o chão.

Miou desesperado. Não conseguia vê-lo. Noite escura, de chuva. Os miados de dor deixavam claro que sua curta vida seria extinta em instantes. Eu, que, estático, o vi tentar passar pela janela e cair, torcia para que o som não cessasse. Ou deveria torcer para que morresse logo e deixasse de sofrer? O fato é que consegui avistá-lo graças ao flash de uma máquina fotográfica que disparei no que eu achava ser sua direção. E era. Ele apenas me olhava. Parado. Sereno. Bem. E não eram seus destroços, era seu corpo preto e vivo.

Passou a madrugada na área de serviço da vizinha de baixo, que teve medo de abrir a porta de sua casa quando eu e Carol, já durante a madrugada, tentamos resgatá-lo.

No dia seguinte, Satanás voltou para o nosso lar. Talvez tenha sobrevivido por ser leve. Talvez por ser gato. Talvez pelo nome. Vai saber. Por mais que eu não acredite em diabo, acho que muitas pessoas que já morreram acreditam. E, na dúvida, não preciso ser alvo nem de aprovação nem de reprovação de seres não-vivos.

Só sei que no mesmo dia mudamos o nome do gato para Hector. Homenagem a um moleque que estudava comigo e que, aos sete anos, foi o primeiro ser humano que vi, ao vivo, fazer um gol de bicicleta. Nem sabia que crianças podiam fazer aquilo.

Desde a última sexta-feira 13, conforme os dias passam, mais e mais improváveis pelos brancos insistem em surgir no corpo do gato, como se a pureza precisasse que o antigo nome fosse embora para poder se fazer presente.

Maculado por algo bom ou salvo por algo mal, o gato dorme. E come. E pede atenção. Ou quebra meus dentes.

Um dia a menina da tatuagem terá paz e cabelos brancos, que talvez cobrirão a antiga imagem. Tomara que, para isso, ela não precise cair de uma janela ou mudar de nome.


* A pintura que retrata o post é uma gravura de Sandra Merwin. Para contatar a artista e adquirir a obra, clique aqui.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Passear

Letra: Marcio Teixeira de Mello

Espere ele terminar
Já esperei tanto
Advogados têm um mundo só deles
Mesmo doente ela está envelhecendo
Quem não se acha só se acha perdendo

Gastei a ficha podre e morta que tinha que ser usada
E tudo é melhor agora
Quando o mal pede, sabe que tem que ir embora
Quando o mal perde, beije, corte e jogue fora

Parecem irmãos
Olham do mesmo jeito
O que ela faz, alguns compram já feito
Deixe correr
Ninguém é seu inimigo
Se não terminar
Já se parece comigo

Ele nunca vai terminar
Tudo bem assim
Julgar
Não há esperto no fim
Você se consertou
E anda por aí
Quem não se encontrou
Não viu que eu saí

segunda-feira, 16 de março de 2009

Coca Zero: o retrato de um vício


Na minha casa, desde a metade do ano passado não falta Coca Zero. Falta água, comida, mas não ela. O pior é que agora quando uma garrafa já está na metade, bate um desespero semi-mortal: aquela sensação de que filmes perderão a graça, a comida perderá sal e eu perderei o sono. E, claro, fica a certeza de que a noite, ou a vida, não fará mais nem uma gota gaseificada de sentido.

Quantas vezes já era início de madrugada quando cheguei para minha esposa dizendo que precisava ir ao bar. Distante. Um iPod no ouvido me ajuda a não pensar na condição de junkie, e sim aproveitar o passeio. A atenção às esquinas e aos vultos - reais, frutos de paranóia ou de delírio abstêmico - é trocada pela imagem de bolhas de gás flutuando num céu negro e sem calorias.

O dono do bar já pode me tratar com desprezo, se quiser. Não irei ligar. Tenho aqui os cinco reais. Pode me humilhar. Jogue a garrafa no chão, pois irei pegá-la mesmo que role até o meio da rua. Mesmo que quique e se parta. Irei achar a rachadura, o furo, e permitirei que dali meu bálsamo volte ao seu lugar, que é dentro de mim. A caixa da padaria sempre pergunta se tenho tentado me livrar do vício. Apenas entrego os quatro e oitenta que ela me cobra. Tento nem olhar nos olhos. Deve sentir o peso nos meus ombros. Deve ver o macaco em minhas costas.

Bebo. Da boca ao estômago aos neurocondutores. Ansiedade e dor voltam a ser livros na estante. Empoeirados. Nunca os li. Sinto o brilho nos olhos e minutos de total prazer e comunhão com esse universo tão legal. Não sou um mais homem. Minhas veias borbulham sangue de cor química E150d. Linda. Marrom escura. Agora sou negro sob a pele bege. Louco, penso se o citrato de potássio (inimigo de cálculos renais) e o benzoato de potássio (assassino de bolores, bactérias e leveduras do inferno), presentes na fórmula americana do líquido, fariam eu me sentir melhor agora ou, ao menos, me conservariam inteiro por dentro para sempre. Embalsamado e sedento. Pulsante e seco. Pois se assim fosse, para sempre estaria com ela. E ela comigo.

Dois litros se esgotam em menos de uma hora. O vazio da garrafa se torna o vazio da sala e de dentro da minha cabeça. O gosto terrível na boca, que, até hoje, é o pior gosto/sensação/sentimento que conheço, só cessará na próxima dose. Que ela seja cavalar e eterna. Que seja como uma princesa negra que me chama para galopar para sempre, junto a ela, em seu cavalo de cafeína e aspartame.

quinta-feira, 12 de março de 2009

JCVD



Acabei de assistir ao filme JCVD. Sim, Jean-Claude Van Damme.

Eu, que sempre soube que sob os músculos morava um ator, já esperava que um dia uma bela obra brotasse dali. E veio. JCVD, lançado em junho de 2008 e dirigido pelo franco-argelino Mabrouk El Mechri, mostra a decadência e a magia lado a lado, personificadas na figura de um ator de filmes de ação de quase 50 anos, cheio de problemas presentes e passados, mas de reputação intacta em sua cidade natal, na Bélgica. Afinal, heróis são heróis.

Poderia resumir a força da obra isolando uma impressionante cena, com Van Damme saindo do chão, ficando apenas na companhia de um refletor. Realidade vital.

Na coragem e nas veias abertas para visitação pública, não há como não pensar em "O Lutador".

JVCD é uma obra honesta demais.
Palco real e ideal para que você veja o que eu já sabia há tempos: Van Damme é, sim, um artista.


Voltando


Quase dois anos longe desse espaço. No entanto, ele, bondoso, sempre esperou por mim. Às vezes até me chamava, mas a quantidade de entulho interior sempre o deixava em segundo plano.

Agora retorno. Se eu quisesse voar e dizer "agora retôrno", a gramática me bateria. Palavras diferentes com grafia exatamente igual. Talvez como as pessoas, cada uma com uma carga genética, histórica, cultural, mas semelhante nas atitudes e modos de pensar.

Pode haver rompimento, fuga, desafio ao senso comum, mas tudo dentro de padrões de comportamento. E tudo com base nos números que conhecemos, em dias de meses que sempre se repetem. Sempre me pergunto se a Terra não enjoa de tanto girar.

No entanto, a criatividade está aí para libertar da mesmice. Você observa o padrão e o contorna. E o coloca diante do espelho. E faz com que o reflexo do padrão cegue momentaneamente o motorista de um caminhão de verdades e dados e planejamento. Talvez pelo tempo suficiente para que a carga que transporta ou se quebre por completo ou seja saqueada pelas populações ribeirinhas.

E esse reflexo é como a invenção de um bom sol, um útil sol, pronto para fazer brilhar apenas o que é real.

Diferente desse nosso sol que, cansado da gente, agora só quer nos sacanear.



segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Barata - O Sabor do Verão

Matei uma barata que subiu na minha perna. Talvez a tenha matado apenas pela petulância da moreninha. Subir na minha perna, assim, de uma hora para outra, sem conversa... Agora ela reside no céu das baratas. O céu com o qual Kardec deve ter sonhado algum dia. O céu que Jesus algum dia deve ter tido uma visão a respeito. O céu onde camarões e baratas voam sorrindo.
Baratas são crocantes. Com limão, devem ser deliciosas. Tira-se as antenas (que são cabelos, ora, e cabelo na comida não é legal), as asas são cortadas. Cozinhe. Depois frite ou não. E limão, bastante limão. Uma iguaria tropical, com o sabor do verão carioca.
A zona sul descobriu as baratas. Pratos de todos os tipos em toda orla. Saladas fantásticas com rúcula, alface americana, baratas e molho italiano. O molho é, de fato, opção do cliente. Batatas com baratas. Batatas com baratas de recheio. Hmmm. Que cheirinho... Salsa, cebolinha e baratinhas. Que beleza! E no pastel? Aquelas perninhas cerrilhadas, o abdômen suculento e o suave molho branco que o bichinho esconde dentro de si. Dependendo do tempero, o sangue é doce ou salgado, e dependendo do nível de cozimento, pode ser líquido e fornecer uma fina porção da mais gostosa sopa ou cremoso e propiciar deleite semelhante ao permitido pelo doce de leite. Incrível.
No liquidificador, com molho madeira, a barata vira uma pasta de cor intensa, radiante, e sabor exótico. Misture com carnes ou até macarrão, em lugar do tradicional molho de tomate. Junte alho e terá uma combinação perfeita.
Sim, uma barata subiu na minha perna.
Eu a matei.
E a comi.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Luciano Huck, o Rolex e o Nada


Então Luciano Huck teve seu relógio roubado.

E, a partir disso, enche a boca repleta de brancos dentes sobrehumanos para dizer, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, que o "Brasil é pior que Bogotá".

Mas... tá.

E aí? E daí? Não sei, mas acredito que o mundo dá seu jeito de fazer as coisas entrarem nos eixos, entende? Não, não me refiro à tão sonhada paz social ou a nada do tipo, até mesmo porque não acredito nela e nem torço por ela, não a curto prazo, pois creio que só com ruas e palácios vermelhos as coisas irão mudar, mas isso já é outra história...
O que digo é que, queridos leitores, acho tão estranho que Luciano Huck exista... Digo, tanto ele quanto tantos outros bastante parecidos com ele. Acho interessante a idéia de que este jovem senhor perca o relógio, pois isso colabora para a distribuição de renda tão pregada por seu animado programa televisivo.
É. Exatamente aquele programa que diz, no quadro "Agora ou Nunca", que o senhor engraxate poderá ganhar uma máquina de engraxar automática 3D Surround com Actingen Plus, mas, claro, só se o coroa for capaz de atravessar três vezes a piscina nadando de olhos vendados, com uma colher na boca carregando um ovo. Claro, o ovo não pode cair. Se cair, o bobo da corte perde a chance de sua vida. Vai continuar mendigando atrás de sapato de couro. Tio Luciano tem o dinheiro ali no bolso, mas não vai dar... Afinal, quem mandou deixar o ovo cair?
Viva a justiça social televisiva.

A TV disfarçada de governo, de orgão benfeitor, é uma piada das mais sem graça, algo semelhante a um advogado recitando poesias. Falso. Sobre o tema, por favor, leiam A Punição Pela Audiência - Um Estudo do Linha Direta, de Kléber Mendonça.
É, Luciano, seu relógio já foi. Como o Brasil é injusto! Tantas famílias perdendo diariamente seus rolex...
Disse, sobre a arma apontada para sua cabeça:
“Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste.”
Talvez tenha esquecido de dizer "um planeta desolado".
Fazendo minhas as palavras de Scott Weiland, que separou a existência em "o que é real" e "o que está à venda", deduzo que, já que o relógio e o carro - que já não é blindado - são comercializáveis, nenhum dos dois existe. A arma também não existe.
Assim sendo, nada ocorreu.


Principalmente porque Luciano Huck, 36 anos, apresentador de TV, também não existe.


Nada ocorreu.


Não lamentem o nada, amiguinhos.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Por Favor, Alienação


Isso, pelo menos partindo do princípio de que é bem claro o que se entende como alienação. Sim, a fuga da realidade e do mundo cheio de concreto pode ser o melhor caminho para, em 2007 ou 2037, se viver em paz. O entretenimento louco, que irradia sorrisos e arremessa prazeres a cada milisegundo, sinaliza algo, e esse algo não é bom e nem ruim. A corrente do "tudo bem" é perfeitamente válida, e, honestamente, não há como dizer que ela é errada, burra, inconseqüente, irresponsável. Temos o direito de não nos importar, certo? Explodir prédios ao invés de pagar impostos seria bom, mas a bondade carnavalesca nos impede se sermos justos. Sim, a tão desejada justiça...

A sede por justiça será tema dos três próximos comerciais da Brahma. Por favor, que alguém diga onde há justiça na natureza... Onde, na selva, há indignação? O ser humano complica demais as coisas. Cria filosofias específicas para explicar o funcionar de uma fábrica de automóveis, estuda origens e finais, que, na verdade, também não existem em lugar nenhum fora da cabeça de australopitecus. E se revolta.

Então enxugue a testa com o caderno de economia, se cubra com o de políica e descanse a cabeça sobre os classificados. Quem disse que o dólar custa R$1,91? Quem? Por que? Quem prende e quem solta ? Por que prende? Na falta de sentido, agarre-se ao que liberta, e entenda que estar livre não é possível quando você sabe exatamente o que tal ministro fez ou o que tal atriz disse.

Não ouça, não veja, não leia.
Não saiba.
Nem conte.
Agradeço pelo amor, pela arte e pelo futebol. Sem eles, o céu seria negro.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Os votos

Olá,

Viajei no feriado, e foi legal. Viva!

De qualquer forma, posso dizer a você, amiguinho, as seguintes coisas:

1. As pessoas que existem vêem o mundo de 1.045.008 maneiras diferentes. Eu contei.

2. Algumas têm cabeças de liquidificador.

3. Outras, pedras no peito.

5. Pouco importa.

9. Pessoas confundem bombas com pombas.

17. Confundem gente sem dente com mentes doentes que devem morrer.

36. O transparente acaba por merecer os votos que os que correm na rua não levam.

8. Não levam.

sábado, 1 de setembro de 2007

Futuresex/Lovesounds

Durante a semana que hoje acaba, ao ver pela primeira vez o vídeo de I Think She Knows, do Timberlake, lembrei de como o último disco do cara é legal. Abaixo, uma resenha que escrevi na época do lançamento da parada (no próximo dia 12 de setembro o disco completa um ano). Como o texto fala não só do álbum, tratando também de conceitos filosóficos-redento-espacias, creio que sua socialização seja uma boa idéia.
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Mais uma vez o tema é “artista originalmente mal orientado que passos adiante se redime sinistramente”. É isso. Justin Timberlake, o cara do N´Sync, em seu primeiro disco já mostrou que era um artista real, capaz de produzir muita coisa interessante, e em diversas direções. É claro que uma produção das boas ajuda, e muito, mas, ora, em que disco a produção não é boa parte do trabalho? Pois em Futuresex/Lovesounds o que se tem é uma série interminável de levadas acachapantes, arranjos soltos e músicas pop perfeitas que se espalham e se transformam. Muito legal mesmo. Se em Sexyback, o primeiro single, Timberlake já se instala em seu cérebro (o yeah dela é um vírus), saiba que o disco cria esse efeito por diversas vezes. Muitos potenciais hits, para variar.
Como exemplo emblemático, Love Stoned começa lembrando Rock Your Body e seu refrão é abissal, com camadas e mais camadas sonoras que criam um ambiente de noite tão dançante quanto perdida. No final ela já começa a se transformar em I Think She Knows, que tem início oficial em uma guitarra que poderia ter aberto By The Way, dos Chili Peppers. Violoncelos reais. Beatbox sem displicência. Bateria quebrada. O cara canta pra cacete e seu som está longe de ser algo vazio ou descartável. Honestamente. A faixa termina sete minutos e vinte e quatro segundos depois de ter início e deixa você feliz por Michael Jackson ter sido bem compreendido.
Outro exemplo: Until The End Of Time parece algo dos anos oitenta, tipo artista de r&b em decadência, naquele clima meio cafônico, mulletesco, de som de motel, mas no refrão você vê que se trata de mais uma música perfeita do cara. Incrível como algo do tipo acontece. É como se o Wando fosse, ao mesmo tempo, o Stevie Wonder. Depois você percebe que ele nunca foi o Wando. Era você quem estava ouvindo rock demais.
Fica claro que Timberlake segue amadurecendo e que as asas vão crescendo. O disco é extremamente coeso, sendo vibrante e escuro na medida certa. E variado. Do funkadeliquismo de Sexy Ladies à delicadeza torta de My Love, do clima dos setenta da bateria e órgão de Damn Girl (com will.i.am do Black Eyed Peas) à melodia e vozes absurdas de Summer Love, tudo é contagiante e legal. Disco que deve ser comprado de olhos fechados.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Jovem Paz Branca


A busca que embeleza o rosto a leva a ser jovem como a atriz de 17 sem linhas de expressão mas também sem talento que brilha na televisão como a feliz estrela mágica da paz em forma de vendedora de cartões de crédito e pastas de dente anunciadas por jovens casais de sorrisos brancos como a pomba que é a bomba da paz que explode na testa da paz do jovem cantor rapaz e da jovem atriz feliz consigo mesma e com o mundo da paz após divórcio e a jovem promessa do vôlei se vê perdida no setpoint terminal do flagra cuspido por aquela revista que você comeu.
Como não consegue estar em paz deve estar mais velho e bem sujo e implorando por algo que não merece pois não merece e não merece e ponto final.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Festa Bizarra

Existem pessoas cujo principal objetivo na vida é ajudar a humanidade. Otis Fodder, por exemplo, é o cara responsável pelo projeto 365 Days, que em 2003 foi capaz de - a cada dia do ano - liberar uma nebulosa pérola sonora para o universo. De músicas com crianças que mal falam até faixas que apresentam novos produtos e empresas ao mercado, passando por exeperiências caseiras, testes eletrônicos em tempos remotos e testemunhos, é tudo uma grande festa!

Abaixo, faixas que merecem sua atenção.

Children's Disco Musical Stories By Sharda - Jack and the Beanstalk (excerpt)
Espetacular. Historinha infantil em meio a funkões com direito a tecladinho vagabundo. O sotaque presente nas vozes é algo digno de uma Björk alemã. Info aqui.

Muhammad Ali - Ali's Historical Theme Song - Tudo pelos dentes. Info aqui.

Cathi Stout - Hips and Abdomen - Faixa de um disco de aeróbica cristã. Info aqui.

Assagai - Hey Jude - A música em interessante versão em algum dialeto africano. Info aqui.

Barbie and Ken (Charlotte Austin & Bill Cunningham) - Nobody Taught Me - O casal de plástico em ação. Cara, a música de 61 da Barbie é melhor do que qualquer coisa feita na música pop de plástico em décadas. Info aqui.

Myron Floren - Disco Accordion - Isso mesmo. Info aqui.

Baby Lu-Lu - Jesus Loves Me - A capa do post. A mulher faz voz de neném. Aterrorizante. Info aqui.

Bruce and Miss Nelson - Soul Transportation - Meditação induzida por fósseis eletrônicos maneiros. Info aqui.


Agora, os clássicos. Estranhos, mas bem legais:

Unknown - Carry On My Wayward Son
Fantástico. Digno de repeats eternos. Info.

The Frugal Gormets - Satan's Blood
Assustador. Se Cartman fizesse do Ween um trio... Info.

Three Guys from Hollywood - Frozen Embryos
Demais. Já esse é se o Jack White fizesse do Ween um trio. Info.

X-Cetra - Conversation/Idiotic/Wasn't There
Demo de garotas de 11 anos dirigidas por algum produtor maluco que na virada dos 80 para os 90 já antevia o que o Radiohead faria em Kid A (só agora, quatro anos depois de ouvir tais faixas e pensando na relação X-Cetra-Radiohead, vi que Idiotic e Idioteque são, né, quase homônimas! Músicas sobre violência entre namorados e decepções. Geniais, essas meninas já devem ter morrido. Info aqui.

Atari - Fly, Yar Warriors/Missile Command/Atari Theme
Pop perfeito. Três faixas bancadas pela companhia para fazer os joguinhos andarem para a frente. Fly, Yar Warriors é um reggae eletrônico com refrão absurdamente grudento e o vocoder comendo solto. A segunda, Missile Command, é tecladinho Casio com vozes ameaçadoras e guitarra quadrada. Atari Theme é uma espécie de megamix eletromilitar, seja lá o que isso for. Info aqui.

The Purple Fox - Acid Test/Patch of Grass/Git Some/Getting Busted/Requiem for Jimi
Jimi Hendrix em um universo paralelo. O tributo, comandado por Leo Miller (que, pelo que consta, parecia ser expert em "homenagens"), é composto por músicas que podem ser interpretadas claramente como "demasiadamente ao estilo do homenageado". É muito estranho. São cópias originais, entende? Engraçado pra caramba. Info aqui.

Joe Aufricht - Horny With A Chick/Moonpants Song/Kindergarten Orgasm Dance/They Wear Dresses/Mothers And Fathers/How Dare You Song
Demência extrema. Ahahaha. Info aqui.

The Amazing Adventures of Pac-Man - Slightly Crazy Lazy Day / It's My Job
Musiquinhas perfeitas. Não consigo deixar de pensar no Syd Barrett em um mundo de poucos bits. Info aqui.

A Little Girl (Marilyn Sokol) - I Want a Monster to Be My Friend
A garota não quer papo com bonecas ou bichinhos. Ela quer é ser amiga de um monstro, "especialmente se for maior que eu". Ela também pede que alguém mande um monstro para ela e tal. Duplo sentido pesado, direto da Vila Sésamo. Info aqui.

Gloria Kirkpatrick - Miss Heroin / Joe Lee Kirkpatrick - Testimony
Sinistro. Pois a mulher, numa voz de bruxa do mar, manda... So now, little man, you've grown tired of grass, lsd, acid, cocaine and hash, and someone pretending to be a true friend said: 'I'll introduce you to Miss Heroin. Well, honey, before you start fooling with me, just let me inform you of how it will be...'. E daí segue. Info aqui.

Leslie Harris and The House Of Fire - Jogging For Jesus
Correndo! Info.

I.B.M. 7090 - Music From Mathematics
De 1962. Info aqui.

Após grande hiato, em 2007 o valoroso projeto voltou. Então, quem tiver algo legal para oferecer ao mundo, por favor, escreva para esse e-mail. É isso aí.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Proteção e Morte e Animais na Estrada


Descubra as músicas que irão lhe proteger ao longo de sua vida, e faça isso logo. Não me diga o que é proteger, e nem do que lhe guardarão, mas descubra. Existem algumas, algumas várias, várias centenas de canções capazes de impedir que você viva a tristeza, fora aquelas que evitam acidentes, assaltos, maus sonhos e tiques nervosos. Varia de pessoa para pessoa, mas, de qualquer forma, tenha seu exército à mão sempre que preciso e se salve do mundo. Aliás, o que lhe protege do quê? Achando seu som certo, avise-me.

Falando em globo cruel, The Bridge, documentário de Eric Steel sobre os suicidas que se tornam suicidas ao saltar da ponte Golden Gate, entra em circuito no próximo dia 24. Rodado em 2004, o filme registra 24 pulos que dão cabo à existência e, pelo que é dito, gera um indescritível vazio nas mentes dos espectadores. Analisar o ser humano em situações corriqueiras é interessante, porém ver seus últimos minutos pode ser mais do que isso. Situações do dia-a-dia acontencem - hum - o tempo todo, mas quantos últimos minutos você presenciou?

Inevitável: o suicídio atrai. Não minta. Aliás, a morte, em geral, é algo tão natural e inevitável que chama a atenção de qualquer um, e o tempo todo. Eu, particularmente, não me sinto tão carniceiro até mesmo por nunca ficar procurando corpos nas estradas quando o veículo que me conduz passa ao lado de um amontoado de ferro retorcido. Costumo olhar para a música que estou escutando (e que possivelmente me protege) e também para as cabeças curiosas à procura do sangue alheio. No entanto, quando, de longe, vejo algo parecido com um cachorro caído no caminho (nada contra os cachorros), apesar de torcer para que não seja um bicho morto, admito decepcionar-me ao constatar que se tratava de apenas um pedaço de pano jogado na rodovia.

Uma vez vi um cachorro transparente correndo no meio da estrada em um pequeno trecho entre Rio e Friburgo, mas isso já é uma outra história...

sábado, 18 de agosto de 2007

Se Dice Bisonte, No Buffalo


Omar Rodriguez-Lopez é um cara incansável. Mais conhecido pela guitarra que comanda a loucura latino-espacial que é o Mars Volta, o pequeno e magro homem tem uma missão: fazer música sem precedentes, e nela o jazz livre e os asteróides são a mesma coisa, por mais que você possa não acreditar. Também é interessante constatar que provas da criatividade absurda desse hiperativo porto-riquenho de 31 anos não se encontram apenas nos discos dessa banda que consegue agradar tanto a gregos nerds quanto a troianos hippies, pois além de suas pegadas estarem presentes na discografia do finado At The Drive-In e em participações especiais aqui e ali, o rapaz produz sem parar através do seu próprio selo, o Gold Standard Laboratories (GSL), que também vem fazendo o favor de lançar outros artistas novos e surpreendentes.

Em seu terceiro álbum solo, Se Dice Bisonte, No Buffalo, é possível afirmar que Omar comete sua mais bela e imprevisível aventura sonora. Contando com uma seleção de músicos que tem por base o próprio time do Mars Volta (reforçado por gente do naipe de John Frusciante e Money Mark), o álbum é cheio de diferentes climas e, por assim dizer, situações. Talvez não seja à toa que a obra seja uma espécie de acompanhamento musical, uma resposta em forma de som, ao novo filme do diretor venezuelano Jorge Hernandez Aldana, El Bufalo de la Noche, que conta a história de um esquizofrênico que comete suicídio após descobrir que a namorada o trai com seu melhor amigo. Sua estréia no México aconteceu ontem, dia 17.08.

O disco, tão atormentando quanto bonito, apresenta dez faixas, sendo que três delas contam com vocais, todos de Cedric Bixler-Zavala. Em uma, Rapid Fire Toolboth, o sax demente de Adrian Terrazas-Gonzales é o guia, enquanto que em outra – a bela faixa-título – brilha a intensa atmosfera criada com piano e guitarra. Nela, Omar pega o instrumento de trabalho e, sem exibicionismo gratuito, faz o que quer. A terceira com vocais, La Tirania De La Tradición, remete à new wave eletrônica, barulhenta e legal do Brainiac. No entanto, é nas instrumentais que Se Dice Bisonte, No Buffalo mostra a sua melhor face. Please Heat This Eventually é dançante ao extremo. Algo como o que Syd Barrett e Jimi Hendrix fariam juntos caso freqüentassem o mesmo clube de salsa. Impressionante. Boiling Death Request a Body To Rest Its Head, por sua vez, é como se a trilha de um filme policial na Miami do meio dos anos 80 passasse por um processo de mutação genética. A delicadeza de Luxury of Infancy e a sincronia melódica de Thermometer Drinking são de chorar.

Chega a ser estranho pensar que muito ainda será feito pelo cara, com o agravante de que é impossível saber o que virá – e isso é bem legal. Com a inventividade e a beleza já possuindo cadeiras cativas na obra do homem, o que vier é lucro.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Jogo Paranóico


Chega de gols. Ninguém quer mais saber deles. Esqueça o passe em profundidade, o belo cruzamento, o toque de calcanhar, pois hoje o que vale a atenção são os lances do não-jogo. Quem diria que, um dia, o impedimento seria o ponto alto do futebol? Quem diria que eternos replays mostrariam em 750 ângulos diferentes como o jogador x estava 0,7 cm à frente do último zagueiro da equipe adversária? Em um exercício de futurologia, adianto a você que em poucos anos as distribuidoras de TV a cabo e via satélite terão em suas grades pelo menos um canal dedicado 24 horas por dia a replays de impedimentos. 24 horas, todo santo dia, de polêmicas e lançamentos que vão e que voltam e que vão e que voltam até você chegar à conclusão de que o juiz errou. Incrível!

Por que torcer para que o contra-ataque de seu time resulte em gol? Comprenda o replay sem fim que lhe impede de saber o desfecho da jogada. Oito centímetros à frente? Quatro centímentros? O jogador x estava impedido, mas não participou do lance. O y, a um centímetro atrás do beque, estava em posição legal. Parabéns!

Nos gols da rodada, ouvimos um simples e sem coração "fulano, em posição irregular, marcou o segundo".

Em um mundo ideal, um jogador não-robô entrará com um processo na justiça alegando que "a emissora tal desqualificou o tento anotado no último domingo, afirmando em rede nacional que o mesmo não deveria ter sido validado. Difamou-me. Nenhum adjetivo positivo foi associado à linda jogada executada por esse humilde atleta. Classificando meu feito como 'irregular', tal rede de televisão transformou uma fantástica obra de arte em um simples e estúpido assalto. Por esse fato, entre alguns outros, peço que sua concessão não seja renovada."

Conte os replays.

E repare na perseguição moral. O técnico que dê seu jeito e use terno e fale palavras suaves em tom agradável aos sensíveis microfones que o cercam durante toda a partida. Se assim não for, gancho. E gancho no jogador que sabe se expressar, e gancho no outro que leva bico o jogo inteiro mas que, no fim, resolve reagir. Gancho no queixo. Viva a tecnologia a serviço do telespectador! "Essas câmeras são muitos espertas, não é mesmo?" 8.000 câmeras por partida. Close no torcedor. E outro close. Escolha seu torcedor símbolo, forme sua opinião quanto ao árbitro humano ladrão, odeie o agressor secreto e o técnico louco. Esqueça o gol, sem graça que é.


A não ser que a bola passe por pouco a linha da baliza...
Entrou ou não entrou? Veja no replay: entrou? Não entrou? Tem que passar inteira. Entrou? Não? É um lance difícil... Entrou? Hein?



A escola é feita:

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Rotina

Oswaldo Freitas, cinqüenta e dois anos, cabelos brancos em uma cabeça já não tão repleta de cabelos, tem uma rotina e se orgulha dela. Acordar às seis todo dia é sua vida. Ver se o canário dormiu bem, dar aquela olhada pela janela e ligar o som para ouvir sua música clássica. Sol escaldante, árvores quase derretendo, mas agradecido sempre está este senhor pela oportunidade de ter saúde suficiente para ainda ser útil à sociedade. Mais um dia se inicia.

Roupa é capítulo fundamental no seu dia-a-dia. Sempre lembra do pai, que sempre dizia que “a vestimenta garante respeito ao homem decente”. Checar e garantir o brilho dos sapatos, constatar a ausência de máculas em suas meias escuras, conferir se o terno está impecável, se o cinto preto é a melhor escolha, se o chapéu é o melhor que possui em sua vasta coleção e se a gravata é aquela que nunca havia usado. Tudo perfeito. Um pós-barba para completar.

Verificar a pasta. De couro. Documentos, anotações, agenda de telefones e uma miniatura de três centímetros em plástico de Nossa Senhora de Fátima. Canetas e lenço de pano. Celular carregado e devidamente guardado. Alguma ligação perdida durante a madrugada? Não, hoje nenhuma. Esquecendo de algo? Não. Seu sistema de cumprimento de tarefas habituais é praticamente infalível. A rua lhe aguarda.

Porta fechada, chave girada, olá ao senhor da banca de jornal. “Flamengo vence o Goiás”. Oswaldo relembra o gol de Obina visto ontem no restaurante da praça mas sabe que o time podia ter perdido. “O técnico expôs a zaga”, ele pensa. Café na padaria, alô aos taxistas. Ônibus. Na viagem até o centro muito pode ser pensado, então Oswaldo contabiliza o tempo que gasta diariamente com esse deslocamento até o coração cinza da cidade. Relógio pesado de tão bonito marca as horas que ele precisa para não se preocupar com um possível atraso. Dá tempo e sobra. Seu sistema de cumprimento de tarefas é, na verdade, infalível, e permite uma viagem tranqüila, sem qualquer tipo de luta contra o ponteiro. Pouco trânsito. O sol segue intenso. “Filtro solar na cabeça só em 2060”, calcula. “Como esses prédios antigos são grandes”.

Pé na rua, na imensidão do centro da cidade. Engarrafamento de pessoas. Compram jóias, vendem moças, chocolates e candidaturas a deputado estadual. Oswaldo, íntegro e já insensível a essas práticas, ignora as investidas e aperta o passo. Dribla o catador de papelão e seu carro fantástico. Se o relógio marca oito e doze, a temperatura é de trinta e nove graus. Madrugadas quentes foram essas duas últimas, com água fresca para o canário a cada três horas.

Destino alcançado. Saltando do ônibus em um largo repleto de gente que caminha em direções opostas. Todas as direções são opostas. Gente engravatada que surge do chão. Novos cortes de cabelo, novas revistas, novas combinações de sucos, novas formas de andar de metrô, policiais femininas, caras de Maria Fernanda Cândido e Cléo Pires pintadas por artistas cegos. “Aquele menino tem cara de operador de xerox”. Apressadas moças em terninhos falando em celulares palavras de arame aos namorados de óculos escuros sentados em salas geladas ouvindo música adulta do outro lado do Rio. Oswaldo olha o sol e confirma para si os quarenta e quatro graus daquela tarde. Afrouxe a gravata, senhor, e resmungue algo sobre a temperatura. Um carro de som diz para que se vote no Wilson do Escritório. Prédios altos demais, mesmo antigos. Como assim? Por dentro, madeira e executivos com salas vizinhas às das prostitutas. Pessoas cinza. Saxofone. Caixas eletrônicos agarram cabeças. A mulher grávida corta o braço e seu filho sai por seu pulso. O rasgado terno marrom de sol e a calça bege puída de Oswaldo não deixam muitas dúvidas, tampouco os sapatos abertos nas solas e o chapéu de camurça verde escuro manchado de água sanitária. “Será que o canário bebeu a água?”

Vagando com sua pasta repleta de lixo pelas ruas do centro da cidade, Oswaldo adora os dias de sol.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Autocriação


Juan Carlos Ramirez Abadía é o nome do traficante colombiano preso ontem em um condomínio na Grande São Paulo. Pelo que consta, era o segundo na lista dos criminosos mais procurados pelo Departamento de Estado norte-americano (a recompensa por informações que levassem a ele era de US$ 5 milhões), ficando atrás apenas de Osama Bin Laden (recompensa de US$ 27 milhões). Deixando de lado os julgamentos morais e as palavras de revolta branca, pois nada disso faz sentido, e deixando também de lado a conversa que enxerga apenas os dólares, pesos argentinos e relógios encontrados na casa de Abadía, vemos o rosto do homem. Mas qual homem?
Buscando poder usufruir do dinheiro acumulado ao longo dos anos e seguir tocando adiante seus negócios, Juan deixou de ser Juan, passando a exibir sobre o crânio uma máscara de carne que era a sua receita de liberdade. Plásticas apagaram do mundo o garoto que nasceu em algum lugar da modesta Palmira e que escreveu seu nome na recente história colombiana com toneladas de cocaína e diversos assassinatos, como os dos 35 amigos e familiares do traficante Víctor Patiño Fómeque, que, preso pelo governo estadunidense, teria delatado Abadía às autoridades locais.
Para viver como o rei que sempre sonhou ser, o dono do Cartel Norte Del Valle - detentor de uma fortuna avaliada em US$ 2 bilhões - precisou chegar ao inimaginável extremo de abrir mão de sua própria imagem, tornando-se um ser estéril, autocriado, um ciborgue do desespero, uma Angela Bismarchi em fuga. Talvez tenha aproveitado a necessidade para estampar no rosto o queixo e o nariz que sempre quis ter, bem como os traços angulares que costumava admirar em outras pessoas.
Juan, possuidor de uma vasta coleção de obras de arte, levará para sempre consigo as marcas do tempo em que o mundo era possível, e era seu.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Não acredito em Beatles


Exatamente: não acredito em Beatles. Acho que a banda é, na verdade, uma lenda desenvolvida por uma seita de compositores e músicos populares espalhados pelo mundo e mantida intacta por quase cinqüenta anos graças a muito trabalho de desinformação. Honestamente, digam-me se é possível que apenas quatro pessoas magras, perecíveis, brancas, inglesas, tenha sido capazes de criar um turbilhão sonoro/criativo de tamanha magnitude. Duvido. Homens não conseguem ser tão simples e tão complexos ao mesmo tempo, e, claro, não conseguem criar sons que não apenas são eternos, mas que não envelhecem nem um centímetro vélhico por ano (por favor, me digam qual a unidade de envelhecimento vigente hoje em dia).

Se alguém insiste que a história da existência dos caras é real, alegando que seria quase impossível manter um complô na ativa por meio século (não sabem nada...), aí já apresento outro argumento, que é o de achar muito estranho que Deus tenha permitido que os quatro pequenos monstros se encontrassem na mesma vida, época e cidade. Acredito que se os quatro apenas se vissem seria o suficiente para que uma onda de surtos psicóticos atingisse as redondezas e que senhoras de meia idade fossem contempladas por combustões espontâneas, entre outras tragédias menores que certamente machucariam centenas de nações.

Pois hoje escutei, após um bom tempo, ao perfeito Magical Mystery Tour, que por alguns anos foi - entre os álbuns da banda - o meu favorito. Trilha sonora de filme de mesmo nome, a obra é algo como uma coleção de lindos e bizarros ultrahits. Tudo muito torto e muito pop. Demais mesmo. O filme ainda não vi, mas preciso, e logo. Você também precisa, mas talvez não saiba disso. Acho que a primeira vez que ouvi o LP foi em 98, e é incrível como aquela atmosfera maluca e quente e feliz permanece a mesma até agora, e acho que continuará assim para sempre. Em novembro, Magical Mystery Tour completará quarenta anos de idade, sendo muito mais moderno do que tudo que foi lançado nos últimos quarenta dias.

Por favor, Blue Jay Way:

domingo, 5 de agosto de 2007

Salada de Frango



Pois ela quis um carro novo, com portas e pneus e espelhos e coisas do tipo. Ela quis se sentir um pouco maior, um pouco mais rápida, um pouco mais séria e certamente mais bonita. Um carro, óculos escuros e música baiana moderna nas caixas de som. A grande onda da maturidade precoce não questiona, apenas buzina. As amigas combinam a ida ao churrasco onde os óculos escuros repousam nas bolsas e bolsos junto às chaves dos carros. Felizes pelo dia de sol e pelas calças novas, percebem como viver é lindo. Obrigado. Obrigado.

Eis que Fred, obviamente bêbado, cai de uma altura de 8 metros, e com a coluna no chão. Uma massa pastosa multicolorida vaza de seu abdômen e de suas costas. Priscila é a primeira a provar o sabor do que entende por alma. "Salada de frango", diz a loura. Fred é aberto do pescoço ao umbigo. Seu recheio, que atrai sorrisos ricos e curiosas moscas, transforma simples pães em deliciosos sanduíches vivos, que podem ou não ser levados à churrasqueira.

Experimente!

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O Paralelo Perdido

Estava hoje tentando traçar um paralelo entre crescimento e conquista. O primeiro passo foi retirar da idéia de conquista tanto a ultramasculinidade quanto os próprios navegadores - por exemplo - portugueses. Don Juan e Cabral conquistaram, mas não sei se cresceram a partir destas vitórias, a não ser que estejamos falando de crescimento do ego e da lista de fãs.

Talvez conquistar seja um bom sinônimo para alcançar provisoriamente, pois nenhuma conquista é eterna. Nada é fixo, nem o nada, apesar da afirmação de que "nada é fixo". Se a conquista não perdura e o crescimento deriva da conquista, da subida a novos degraus, do alcance ao que antes era tido como inatingível, crescer pode ser considerado um caminho igualmente reversível.

Curioso pensar que a maturidade física, o avanço profissional e o desenvolvimento do espírito podem ser apenas uma pequena parte de uma estrada retrátil. O copo de plástico que vira um disco colorido.

O atleta perde as pernas, o diretor perde seu emprego, o monge se apaixona pela menina.

Crescer e conquistar. Não há paralelo, até mesmo porque crescer envolve a dor que a conquista se recusa a aceitar. Sim, há paralelo, mas não que eu consiga compreender hoje. Ou agora. Não há paralelo, pois a seta do crescimento aponta para cima, e a da conquista, para dentro.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Começou (aliste-se)!


Saindo da reserva florestal dos pensamentos congelados, surge este blog.

Nele, Marcio Teixeira de Mello Jr. (no caso, eu) fará colocações interessantes que, às vezes, serão interpretadas como descabidas, mas que, no final das contas, provavelmente farão um certo bem à sua pessoa. Digo, um bem a você, e não a ele, caso não tenha ficado claro. Se bem que também será positivo para mim...
Acredite. É quase lógico!

Fiquem por aqui. Prometo fazer deste um bom lugar.
Agora, com vocês, nossos patrocinadores.

Um abraço!