
Então Luciano Huck teve seu relógio roubado.
E, a partir disso, enche a boca repleta de brancos dentes sobrehumanos para dizer, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, que o "Brasil é pior que Bogotá".
Mas... tá.
E aí? E daí? Não sei, mas acredito que o mundo dá seu jeito de fazer as coisas entrarem nos eixos, entende? Não, não me refiro à tão sonhada paz social ou a nada do tipo, até mesmo porque não acredito nela e nem torço por ela, não a curto prazo, pois creio que só com ruas e palácios vermelhos as coisas irão mudar, mas isso já é outra história...
O que digo é que, queridos leitores, acho tão estranho que Luciano Huck exista... Digo, tanto ele quanto tantos outros bastante parecidos com ele. Acho interessante a idéia de que este jovem senhor perca o relógio, pois isso colabora para a distribuição de renda tão pregada por seu animado programa televisivo.
É. Exatamente aquele programa que diz, no quadro "Agora ou Nunca", que o senhor engraxate poderá ganhar uma máquina de engraxar automática 3D Surround com Actingen Plus, mas, claro, só se o coroa for capaz de atravessar três vezes a piscina nadando de olhos vendados, com uma colher na boca carregando um ovo. Claro, o ovo não pode cair. Se cair, o bobo da corte perde a chance de sua vida. Vai continuar mendigando atrás de sapato de couro. Tio Luciano tem o dinheiro ali no bolso, mas não vai dar... Afinal, quem mandou deixar o ovo cair?
Viva a justiça social televisiva.
A TV disfarçada de governo, de orgão benfeitor, é uma piada das mais sem graça, algo semelhante a um advogado recitando poesias. Falso. Sobre o tema, por favor, leiam A Punição Pela Audiência - Um Estudo do Linha Direta, de Kléber Mendonça.
É, Luciano, seu relógio já foi. Como o Brasil é injusto! Tantas famílias perdendo diariamente seus rolex...
Disse, sobre a arma apontada para sua cabeça:
“Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste.”
Talvez tenha esquecido de dizer "um planeta desolado".
Fazendo minhas as palavras de Scott Weiland, que separou a existência em "o que é real" e "o que está à venda", deduzo que, já que o relógio e o carro - que já não é blindado - são comercializáveis, nenhum dos dois existe. A arma também não existe.
Assim sendo, nada ocorreu.
Principalmente porque Luciano Huck, 36 anos, apresentador de TV, também não existe.
Nada ocorreu.
Não lamentem o nada, amiguinhos.