quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Creme

Só tenho que rezar
Pra esse creme ser infinito
Senão vou descascar
Até o rabo fazer bico

Nesse fragmentar
O poro sangra, não é bonito
Então a cabeça cai
Lenta que não cabe um grito

Só tenho que rezar
Para o creme ser infinito
Ou terei que gastar
Oitenta contos esquisitos

Ele evita sonhos maus
Pesadelos não saem da testa
Então, pescando idéias tristes
Vivo em eterna festa

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Vida

por Marcio Teixeira de Mello

Desapego
Diante de mim pode ser um mau exemplo
O nome é outro
Mas o resultado final claro que é o mesmo

E o que é a vida
Além de impulsos e curtos circuitos desenfreados?
Viagem de ida
Retorno garantido em cem carros parados

Sangue circula
Levando o ar para algumas voltas desse lado
Mas sem motivos
Pergunte ao bicho a razão de estar acordado

Além do prazer
Não poderá haver absolutamante nada
Te tira o gozo
E o que sobra é um esqueleto na estrada

Somos o animal
Mas brincaremos de entender e organizar
Ao defender a vida
Defenderemos o que nunca existirá

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Se Carros Não Fizessem Vento

Marcio Teixeira de Mello

Depois desses olhares estão as crianças
Deixando cada coisa em seu lugar
Se morrem as vontades, matam quem se cansa
O bom é que a história irá parar

Se carros não fizessem vento
O fogo não iria se espalhar
Se você conseguisse aumento
O fogo não iria se espalhar

E corre
E pede
Esnobe
Se entregue

O peito que segura e que mantém vivo
Certamente irá te atrapalhar
Sentado ao lado do rei que sai da barriga
Mas ele não tem nada a te ensinar

E corre
E pede
Esnobe
Se entregue

Pois quem voa, a vida ensina
Viva na bolha, dance na mina
Sei que te interessa comprar a escada da moral
Suba e caia
Tão normal

E corre
E pede
Esnobe
Se entregue

Se move
Repele
Escorre
E negue

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Frutas e folhas

O cheiro é de frutas se decompondo nas ruas
Amêndoas, tamarindo e paredes cruas
Folhas também se desfazem
E o vento provoca miragens
Bandeiras em postes tremulam
Tremendo, pessoas simulam
Eternidades que não perduram

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Merecimento


"Você merece o melhor" é uma boa coisa de se ler. A qualquer instante.

Mesmo que surja discretamente, travestida de slogan em uma sacola de compras escondida numa foto sua tirada em 1980.

domingo, 9 de agosto de 2009

Fora do baile de máscaras

Um hemograma me disse que não fui convidado para a festa do porco. Que bom. Mas que o mal estar é de matar, ah, ele é. E na hora de tirar sangue, pensei que seria uma merda morrer. Definitivamente, não é uma boa hora para isso. Até pensei em congelar meu sêmen ao chegar em casa. Me perguntei se nossa geladeira daria conta do recado.

E já na minha rua, após horas entre exames e esperas, tive que fugir de morcegos. O remédio injetado seria tão forte assim? Não... O Grajaú é assim mesmo.

Mas que me senti no início de "Medo e Delírio", ah, eu me senti.


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Gnarls Barkley - Who's Gonna Save My Soul

Cacete...

Corpo e/versus alma

Corpo e alma juntos
Mas não era pra ser assim
Era para um descansar e o outro partir
E de manhã chamarem por mim

Pois um não quer saber de parar
E o outro não sabe como voltar
Depois de algum tempo, um certo encontro
Mas tudo custa a funcionar

Então os dois me chamam de madrugada
E pedem um tempo pra conversar
E eu, bem no meio, como idiota
Tento entender o meu lugar

O corpo, cansado, levanta
A alma, voando, quer janta
E eu, só olhando o buraco que fica
Procuro fazer-me de tampa

Mas acho que vamos seguindo
Cedendo um ao outro e sorrindo

- Corpo, quer pausa? Descanse.
- Alma, quer casa? Então dance.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Mau céu

Em algum momento do dia
Vi crianças felizes na rua
Pensei que há tempos não via
Nenhuma delas
Com sérios problemas de saúde
Daqueles tipos visualmente identificáveis
E até pensei que Deus poderia estar andando mais bonzinho
Esquecendo possíveis karmas
E se concentrando no aqui e no agora

Foi pensar isso
Descer alguns andares
Para ver uma mãe com um filho de um ano no colo
E a situação da criança
Queimada
Me fez reconsiderar algumas impressões
E ficar muito puto com o céu

terça-feira, 28 de julho de 2009

Ferrado como um vampiro à moda antiga


Conseguiram "nerdilizar" os vampiros. Ou melhor, "emotizar" e "nerdilizar". Eu, pequeno, com medo do Christopher Lee, é uma imagem surreal hoje em dia. Tudo porque pegaram o carinha da Transilvânia e o humanizaram, o ridicularizaram, transformando a besta em uma espécie de ursinho de pelúcia com dois dentes afiados mas com muito amor atormentado no coração.

E isso é uma verdadeira receita de sucesso, algo prontamente consumido. Todos lêem, todos vêem. E até gente estranha como Thom Yorke já ingressou na parada, colocando músicas do Radiohead na trilha do tal "Crepúsculo" e de sua sequência. Estranho. É como ceder sua imagem para um anúncio de algum produto tão jovem e bobo que nem consigo imaginar. Talvez um... filme mesmo. Com os Jonas Brothers, por exemplo.

E pergunto se os Jonas Brothers não são vampiros. O NX Zero não seria uma banda de vampiros, que sugam sangue jovem e oferecem em troca uma vida sem vida? Ah, sim, é isso o que eles fazem.

Cacete. Transformaram bestas sinistras em um estúpido artigo jovem. Se apoderaram do charme e da melancolia desses personagens e agora vendem requeijão. Claro... Frankenstein não venderia requeijão. No máximo uns piercings em forma de parafuso.

Penso nisso tudo por ultimamente ter me sentido meio vampiro. Mas no sentido romântico da coisa, com a imagem romântica à mente. E não me sinto assim por causa de uma possível sede de sangue ou eventuais empalações a la Vlad Dracula. Tenho é trocado o dia pela noite, e saindo de casa quando o sol já pegou seu ônibus de volta pra casa. E isso é estranho. E ruim. Acho que estou com saudades de não me sentir como um ser que sai à rua, quando sai, apenas quando a vida local está cansada, as portas fechadas, quando baratas se animam a espalhar seu cheiro pelas encruzilhadas embueiradas.

E o dia de amanhã provavelmente não será diferente. São 6h02. Ainda não durmo, mas minha imagem ainda aparece no espelho. Acho eu. Alguns quilos a menos nas últimas semanas, já que horários estranhos comem refeições, não deixando algumas delas para mim.

Ainda apareço no espelho, se bem que vampiros modernos devem aparecer no espelho, comer deliciosas refeições carregadas no alho etc. São modernos, ora. Se bem que gente muito moderna deve ser fresca o suficiente para odiar alho. Idiotas. Alho é bom pra cacete.

Vampiros modernos devem morrer apenas quando acaba o lápis de olho ou a bateria do celular.

sábado, 25 de julho de 2009

Zé Carlos: ídolos nunca morrem


Grande Zé Carlos,

Escrevo-lhe para lhe desejar força e paz. Com isso em mente, tudo fica mais fácil. Originalmente, essa mensagem foi enviada a você em forma de e-mail, quando ainda estava no hospital. Mas, agora, em um novo momento, já sem dor e sofrimento, sinto que é ainda mais necessário transmiti-la a você.

Hoje tenho 29 anos, mas em 87, aos 7, descobri o maravilhoso mundo do futebol. E logo a primeira esquadra rubro-negra que conheci e amei foi a de 87, com você no gol. E por mais que tivéssemos a genialidade de Zico e o talento rebelde do Renato no nosso time, o presente de dia das crianças que pedi para minha mãe não podia ser outro: um uniforme completo de goleiro. Por causa de você.

Quando agarrava, chamava a mim mesmo de estranhos nomes, como Zé Teixeira ou Marcio Carlos, e imaginava que era você quem, por meio de mim, fazia fantásticas defesas de chutes nem tão fantásticos do meu pequeno irmão.

Ali, na garagem vazia de nossa casa, eu era, inquestionavelmente, o Zé Carlos!

Posso dizer com toda a certeza que você foi o meu primeiro grande herói. E até hoje, quando penso em Flamengo e penso em um goleiro, o nome e a imagem de José Carlos da Costa Araújo me vêm à mente imediatamente.

Um grande abraço, Zé. Paz.

Desse seu amigo e fã incondicional,

Marcio Teixeira de Mello Jr.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Insônia

Não consigo dormir
Na dor de não dormir
Pavor de não dormir
Querendo só dormir

Não acho a posição
Nem a aniquilação
De todo pensamento
Sobre o hoje
O ontem
E o depois de amanhã

Temo a mente vazia
E toda e qualquer fria
Que ela pode armar pra mim
Embora só com ela assim
Dizem haver a paz

Paz no fechar de olhos
E no pensar em nada
Temendo, ligo o som
E ouço discos
Como discos em uma estrada

Às duas passa um avião
Às três começa a feira
Às quatro quero a concentração
Ou talvez a descontração
Para fugir da beira

Um remédio é pouco
Dois, vi não adiantar
Três eu já nem penso
Pois quero acordar

Medo do pesadelo
Tocar o mundo e perdê-lo
Como os dentes e as vidas
Nessas idas e vindas
A um mundo que agora sempre custo a visitar

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sobrancelhas, pilhas, descongelamento, descontrole e Mars Volta

Então, nesse sonho, minha mulher aparecia com uma monocelha
E achava que estava legal
Falei "tudo bem", mas que ela mantivesse as sobrancelhas guardadas
E guardadas dentro de um pequeno rádio
Suas sobrancelhas eram, então, pilhas pequenas
E o rádio, com elas ali dentro, passava a funcionar
Sobrancelhas, eram, de fato, sombrancelhas

Em outra parte do mesmo sonho
Minha mãe dirigia um fusca azul em sua querida Araruama
Mas o fusca uma hora passava a ignorar os comandos da hábil motorista
E andava sem controle algum
Tudo porque um grande pedaço de carne havia descongelado em seu interior
Mas tudo terminava bem

Abaixo, os dois novos vídeos do Mars Volta. Assista com amor.

Cotopaxi



Since We've Been Wrong

As verdades

Primeiro dia de aula na minha turma da primeira série do primeiro grau. Todos têm sete anos. Todos já sabem ler. Venho do turno da manhã. A grande maioria da turma já se conhece de outras tardes.

Logo nos primeiros minutos, já na sala de aula, mas antes da aula em si ter início, percebo na boca dos colegas que o mundo agora é permeado por palavras misteriosas que claramente indicam uma tentativa tola de ser menos criança. Depois fui saber que eram palavrões.

Também ouço alguém dizer que Papai Noel não existe. Pulga atrás da minha orelha. Tolos. Não sabem o que dizem. Dias depois, depois de eu muito insistir, minha mãe acabou confirmando a versão. É, eu estava em meio a adultos.

Então, na sala, antes do início da aula, como minutos antes da criação do universo, há alguma conversa. Sou eu e mais uns quatro meninos. A vontade de ser grande impera e a competição masculina, que aos seis anos, nas manhãs do CA, não sentia existir, agora é tudo o que importa. Sinto que parece certo ou pelo menos normal adentrar esse mundo. Joguemos.

Cada um analisa seus livros e a agenda recém-distribuída. Perguntas e respostas são as armas, os instrumentos de imposição, de afirmação. Cada menino precisa provar ao outro que é, de fato, o mais inteligente.

Logo alguém pergunta qual o maior estado do Brasil, como se estivéssemos em um quiz show infantil transmitido em rede nacional, e cujos resultados definiriam o "quem é quem" ao longo do ano. Respondo, sem pensar muito, pois era claro: "Amazonas!". Mapas geográficos e do corpo humano me interessavam bastante. Piauí, Pernambuco, húmero, tíbia, perônio, carpo e metacarpo.

"Burro...", alguém rebate. "Amazonas não é estado, é floresta!", e todos os outros imediatamente concordam. Percebo que o debate nada tinha a ver com inteligência ou conhecimento. Eram só crianças agindo como pessoas. Não retruquei.

"E alguém sabe se existe, no mundo, algum país com 'H'?", alguém levanta logo em seguida.

"Holanda!", digo. Se eu sabia, por que não dizer?

"Tá errado", alguém afirma. "Pois se fosse com 'H', falaríamos 'Rolanda'", completa, com toda a verdade, sabedoria e autoconfiança que o universo conseguiu concentrar ao longo de sete anos em seu corpo/cérebro/alma. E todos concordaram, admirando o saber do amigo.

Minutos depois, surgiu o universo. A professora escreveu seu nome no quadro e, com isso, iniciou o trajeto escolar pós-alfabetização que cada um, ao longo dos anos, seguiria do próprio jeito.

Mas o que estava feito, estava feito. E estava claro: sempre existiriam tais "alguéns", e a verdade andaria sempre ao lado deles, por mais errados que estivessem. E, amanhã, na falta da verdade, apelariam para a esperteza ou para os grandes feitos. Mas aos sete, tudo já estava definido.

Nem retruco.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Roberto Carlos - serei breve

Se um chimpanzé fosse escolhido apresentador do programa de tv que lançou a Jovem Guarda, ontem comemorariam os 50 anos de carreira dele.

Viva TIM MAIA!!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Distratações

O chão está vivo
E tudo é o chão

Mesmo
Aquele humilde choro de Jericó
Aquela linda idéia de Girico
Querem que o dia acabe
Na demência que mostra como viver

Sim, querendo ser um alcoólatra
Que respira em ritmo ao gosto do freguês
Escale uma montanha e encontre o pedido de desculpas de Deus

Bisbilhoteria

Lunula é um nascer do sol

É uma época de desabamentos

sábado, 4 de julho de 2009

The Michael Jackson Mixtape


Mas o som fica. E fica direto.

Abaixo, as faixas da mixtape que finalizei há menos de uma hora e que foi construída a partir de sons dos discos "Music & Me" (1973), "Forever, Michael" (1975), "Off The Wall" (1979), "Thriller" (1982), "ABC" (1970) e "Goin' Back To Indiana" (1971), sendo este dois últimos dos Jackson 5.

Para baixar a mixtape, clique aqui. E dance.

01. Off The Wall
02. Burn This Disco Out
03. Baby Be Mine
04. Get On The Floor
05. We're Almost There
06. Rock With You
07. Take Me Back
08. Billie Jean
09. I Can't Help It
10. I Want You Back
11. Workin' Day And Night
12. Beat It
13. Euphoria
14. Wanna Be Startin' Somenthin'
15. Just A Little Bit Of You
16. PYT (Pretty Young Thing)
17. Thriller
18. Abc
19. Dear Michael


quinta-feira, 2 de julho de 2009

Som cinza e negro

É um tipo de sonho
Mas com a ciência de que se está acordado
De olhos fechados
Na cama
Era relaxar um pouco
E um som terrível, de tv fora do ar
Misturada a palavras
Que vinham de um círculo vermelho
Sabia que vinham de lá - via o círculo
Tomavam conta da minha cabeça
Alto a ponto de eu chamar por ajuda
E nem escutar minha própria voz
E assim foi
Umas três vezes em uma mesma manhã
Indo e voltando
Fechando e abrindo os olhos
Entrando e saindo desse mundo torto
Em um último esforço
Como o de alguém que não quer se afogar
Pulei fora
E cataloguei

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Karany Karanuê


Na noite do último sábado peguei um táxi para a Lapa. Minutos antes quase presenciei um sequestro. Pouco à frente de onde estava esperando algum motorista, "alguém a" roubou o carro de "alguém b" com "alguém b" dentro do veículo. Não sei o desfecho da história.

Ao contar sobre o ocorrido para o taxista, veio logo a pedrada:

"Para mim esses caras nem têm que ser presos. Tem é que matar", disse.

"Hitler dirige meu táxi", pensei.

Rapidamente a conversa tomou outro rumo. Um rumo familiar a mim, membro de uma família com várias restrições à Globo em função de sua exagerada influência nos campos político e cultural brasileiro. Segundo a gente.

Minha família possui membros radicais nesse sentido. Creio que eu seja um deles. Mas de uma forma saudável levamos essa nossa fundamentada implicância adiante. E viva Brizola!

Já o taxista estava alguns passos à nossa frente no quesito "paranóia global". Era um fundamentalista.

"A Globo vence qualquer ação na justiça. E ela destruiu a vida da minha tia", disse.

O taxista explicou: sua tia, a compositora Diana Camargo, co-autora da música "Karany Karanuê", foi, segundo ele, claramente roubada no VI Festival Internacional da Canção, realizado em 71. A canção, interpretada pelo Trio Ternura, teria tido votos favoráveis entrando na conta da música vencedora, "Kyrie", dos compositores Paulinho Soares e Marcelo Silva e também cantada pelo Trio Ternura. De fato, palavras estranhas com a letra K e o Trio Ternura eram a sensação do momento e não devem ter do que reclamar da competição.

"Minha tia viu o roubo de votos! Roubaram na frente dela", disse o taxista, da forma paranóica que conhecemos bem quando o assunto é perda e Globo. "Era muito boa a música. Karanyyyy... karanuêêêêêê...", cantarolou. "A música era o lado A do compacto que ela lançou. O lado B era outra ótima música: 'Sarany Saranuê'. 'Saranyyyyyy... saranuêêêêê', cantou. Gargalhei por dentro. Essa similaridade entre os títulos... Pensei em falta de criatividade ou demência. No passado ou no presente.

"Engraçado os nomes parecidos, não?", perguntei.

Acho que ele não respondeu.

"O senhor sabe o que significam essas palavras", perguntei também.

"Não", disse ele, de forma seca.

"Minha tia processou a Globo", continuou, "mas não conseguiu nada. Tava todo mundo comprado. Depois ela descobriu que o próprio advogado dela trabalhava para a Globo. E a Globo também mandou recolher todos os discos dela nas lojas", falou o sobrinho.

"Mas como? O que a Globo alegou para conseguir tirar os discos dela das lojas?", perguntei, ao mesmo tempo em que jogava lenha na fogueira. "Essa Globo é foda mesmo...".

"Não sei como, mas tirou. Vou te dizer... Minha tia tinha condição, tinha recurso, mas por causa disso, morreu na miséria", acrescentou o taxista cujo nome nem consegui ler.

"É fogo a Justiça... Advogados, juízes... É todo mundo corrompido mesmo. Todos têm um preço", afirmei, emendando algo que poderia fazê-lo ficar feliz ou revoltado de vez.

"Um dos meus maiores ídolos era um dos principais opositores, senão o principal opositor da Globo", e pronunciei o nome de Leonel Brizola.

"É, o Brizola fez muita coisa boa", me surpreendeu o motorista. "Fez os CIEPS, ajeitou a Avenida Brasil... Mas proibiu que a polícia entrasse na favela! Por isso que a violência está do jeito que tá. O morro tá descendo e eu nem quero saber. Pra mim, não tem isso de prender: tem é que matar todo mundo", concluiu ele, encerrando a conversa paranoico-lamento-saudosista com uma volta ao ponto inicial, bem fascista.

* * * * *

Saltei na Lapa. Festa junina de rua. Um garoto parece ter um ataque epilético perto da nossa mesa. "Isso aí é fingimento. Agora há pouco ele caiu e, quando fomos ajudar, ele levantou rindo", disse um festeiro, ignorando carasterísticas comuns aos curto-circuitos cerebrais.

Muita gente em volta do garoto, que nem sei se era garoto mesmo. Polícia, fotos, massagem cardíaca ou segurar de língua. Pouco depois tudo estava normal, com o garoto que talvez não fosse garoto comendo uma maçã do amor na barraca ao lado ou dormindo para sempre dentro de um rabecão.

As cervejas seguiram dando o tom da noite, que se tornaria chuvosa mais tarde. O celular, molhado, falava por meio de códigos:

"43334444444333444###343434333344443434333" era tudo o que ele podia pronunciar, insistentemente, com algumas variações.

"Karany Karanuê", pensei.

"Sarany Saranuê", completei.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

MJ





Acho errada essa morte
E que a beleza tenho sido resultado de dor
O tempo disfarça, engana, ajuda
Mas não faz o espinho se transformar em flor

Que o tormento dê lugar a alguma paz
E que a alegria dessa vez venha pra ficar
Quando o corpo pede que não continue
É então a hora de começar a brilhar

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um conto sobra nada

Olá.

Poderia contar algo sobre longos caminhos.
Encontros.
E mudanças sutis na rotação terreste.

Mas não.

Conto sobre nada.
Um conto sobre nada.

Sobra nada.

Só buracos.
Que podem ser reabertos.

Basta querer.

Ou esquecer.

Um conto sobre nada acontece.
E acontece de eu não querer mais nenhum controle.

Que os rios de vida ou doença sigam vias próprias.

Sem culpa.

Sem dor.

Já que há uns oito anos descobri que não sou Deus.


sábado, 20 de junho de 2009

Um Tipo de Laura Dern





















Metrô: o coroa se apresentou
E viajou conversando com um tipo de Laura Dern

Quando ela saltou
No Estácio
Nem um novo aperto de mãos impediu que o coração dele
Se quebrasse bem na minha frente

Durante a conversa
Galã
Colete e postura
Depois
Sua coluna parecia um ponto de interrogação

Então deixou-se escorregar pelo banco
Entregue
Sem um grama de alegria e esperança naquela noite

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Funk Mixtape contra toda e qualquer frustração


Motivado pelo quase total desconforto sentido no último sábado, quando eu, minha mulher, irmão, cunhada, primo, prima e respectivos amores fomos ao Circo Voador. A festa: "Eu Amo Baile Funk".

Menti. Fui hipócrita. Eu não amo o baile. Amo o som. Mas acabo caindo naquele papo velho, de quem gosta da versão "teia de aranha" do estilo... Achei que seria uma noite de bases velhas, de coisa boa. Mas não rolou. Defendo o som feito atualmente no Brasil como legítima forma de expressão cultural popular. Quem mete o pau deveria comer discos do Tom Jobim no café da manhã. Mastigar vinil, entende? Mas o fato é que, em meio a tanto funk feito no Brasil (é o samba do futuro: é da galera e brota em todo lugar), tem muita coisa boa e muita boa porcaria. Destaque para os oportunistas ricos jovens ultrabrancos de São Paulo e Curitiba, todos de olho no mercado internacional. Funk pra turista, feito por gente que nem sabe quem é Steve B. Mas voltando ao "Eu Amo Baile Funk" do último sábado, mesmo (felizmente) não abrindo espaço para os Bonde do Rolê da vida (aí seria o fim dos tempos), só merda foi tocada.

E com DJs que tinham compromisso maior com repetir seus nomes repetidos do que tocar coisa boa, eu não sei o que acontecia, mas a batida - que é o coração do acontecimento - parava toda hora. Cansativo. E aí vinham aquelas convocações de torcida de futebol, aquelas músicas dedicadas a celebração de cornos, gays, carecas, pessoas de camisa verde, amizades com moças de vida fácil... Parecia uma festa infantil, mas com cerveja. Dê cerveja e malícia a crianças que elas fazem exatamente aquilo.

Malícia que dá origem às visões do inferno. Homens dançando e rebolando como mulheres bundudas e usando isso - acreditem - como eficiente instrumento de atração de exemplares do sexo oposto. E as mulheres, ao atenderem ao chamado, dançavam como quem copulava. Cara, é legal ver tal cena se a moça é visualmente interessante, mas acontece que o "Circo" se torna palco de todo tipo bizarro de exibição-sexual-dançante-com-dedinho-na-boca, e executada por todo tipo de gente. Algumas mulheres pareciam ter oito quilos, e oito quilos, mesmo em movimento, não excitam. Outras já passavam da idade e seguiam com o mesmo bailado. E era tudo playboy e playgirl ali. Todo mundo. O preço era alto (não para a gente: valeu, Cristian!). Mas não é isso. O estranho não são os biotipos e nem a sexualidade/sensualidade obrigatória, quase mambembe, quase National Geographic. Era o som. O som era ruim.

Quem tava ali, musicalmente falando, só tinha memória ou idade ou sei lá o que para se recordar do funk feito a partir de 94, ano em que funk era coisa de Xuxa. Então quando o DJ pensava em "som sinistro, do passado, clássico das profundezas abissais do oceano do funk", não pensava em "Chain Gang", mas em "Dança da Cabeça". Aí não dá.

Então resolvi fazer uma mixtape para exorcizar esses maus pensamentos/sentimentos e frustração biomusical. Só parada do mal. Se você baixar, será feliz e dançará até seus pés e alma sangrarem na sala de estar, na festa, ou deitado, de olho fechado, sem necessariamente mexer sequer a cabeça toda hora sem parar/para cá e para lá.

Funk Mixtape - M. Funk
por Marcio Teixeira de Mello

01. Ose' - Computer Funk
02. J.J. Fad - Supersonic
03. U Gents - Chain Gang
04. MC A.D.E. - How Much Can Take
05. Freestyle - It's Automatic
06. Bass Patrol - Faking No Movies
07. Salt'n'Pepa - Push It
08. Disco Rick & The Dogs - Your Mamma's On Crack Rock
09. Bardeux - Bleeding Heart
10. Shavonne - So Tell Me, Tell Me
11. Trinere - I'll Be All You Ever Need

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Persemonições Extintagu(i)avoa


Persemonições Extintagu(i)voa
Marcio Teixeira de Mello


Árvores
Nascendo sobre árvores
Que nascem sobre árvores
E ela faz a curva
Que dará na abertura
Do olho vivo em dois

Sobrevoando pirâmides
Fuja das perseguições
Do seu jeito
E das premonições
Tão certas e tão claras
E do claro efeito

Brotando do chão
Não de dissipe
Talvez se mortifique
Pra que se prontifique
E aceite o que vem

Pois nenhuma
Ligação fora de hora
Fará de quem não chora
Alguém fraco e menor

Não se molhará
Em águas que estão secas por dentro
Não se extinguirá
Pois isso de extinção é tolo e sempre vai com o vento

terça-feira, 9 de junho de 2009

Dê a Mão

Letra: Marcio Teixeira de Mello

Dê sua mão ao diabo se quiser conhecer o bem
Conte os meses aos amigos, descarrilhando o trem
Quanta gente nessa rua, desse lado da minha casa
Minha mão nesse vazio quente que não para

No passo transparente passo a febre que ninguém me deu
E quem é você depois de mim?
Dê comida ao seu mundo
Longe, frio e quase ruim
Mas você não sabe imaginar

Querer ou perder
E se despedaçar
Revele o chão desse lugar

Pois a calma, o tempo e a lembrança eu já sei
Dê a mão ao diabo na rua
Eu dei

Dê a mão ao diabo se quiser conhecê-lo bem
Conte os meses aos amigos, descarrilhando o trem
Quanta gente nessa rua, desse lado da minha casa
Minha mão nesse vazio quente que não para


sexta-feira, 5 de junho de 2009

Curiosidade Mórbida Subaquática

"Curiosidade mórbida" é o tema de todos os jornais brasileiros nesses últimos dias.
Não que o avião, do ar, agora no fundo do mar, não seja um tema digno de atrair o ser humano.
Mas assim, desse jeito, é monótono.

Quando estou na estrada e passo por um acidente, sei que é um acidente.
Não preciso esticar o pescoço para tentar ver pedaços de ferro e de gente.

Os jornais, nesse momento, são esses pescocinhos esticados olhando pela janela do ônibus.

Pelo menos não estão deseperados buscando culpados...
Mas é que o acidente não é "doméstico"...
Se fosse, já teríamos trocado a lamentação pela caça às bruxas, elegendo novos PCs Farias e Edmundos aéreos-subaquáticos.


quarta-feira, 3 de junho de 2009

A Cor Que Você Vê

Letra: Marcio Teixeira de Mello

Desculpe pelo ataque-surpresa
Pela irracional natureza
Que insiste
Em dominar

Desculpe pelo atraso na hora exata
Pela falha de conexão

Eu tentei olhar mas esqueci
Qual é a cor que você vê

E eu tentei falar mais alto
Bem mais alto que você

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Sumiço do Som (ou Eu Acho Que Sei Como é Sofrer um Acidente de Avião)

De tanto sonhar com isso, acho que sei o que acontece ou como me comporto.

Não. Na verdade, acho que não me comporto.

Independente das sensações pré-fim, a idéia de fim óbvio não é o mais estranho. Não importa se a nave cai como se um deus a tivesse nas mãos em uma hora e, no momento seguinte, não mais, ou se ela desce como quem desce um ralo, ou como dedos soltos que deslizam pelas espirais de um caderno. O meio não importa quando o fim é certo.

O que chama mais a atenção é a massa sonora sem controle.
Louca.
Sons sólidos.
Sons que podem matar antes que a própria morte os receba de boca aberta.

São sons que formam um universo de vidas e incredulidade, que, um segundo depois, somem.

Assim.

O sumiço da vida, ou o surgir de toneladas de metal branco em meio a um oceano negro e cheio de outras formas de vida, não são o mais assustador.

O pior, é o sumiço do som.



domingo, 31 de maio de 2009

Falando por meio de outrem

Só tenho escutado Beatles e cada cara que integrava esse inexplicável grupo de pessoas.

Então acho que o vídeo de "I Am The Walrus" pode falar por mim no dia/noite/dia de hoje. Acompanhem os passos de homens-ovo, de policiais perdidos e de músicos felpudos e animalescos.

Note ainda que eu sou ele tanto quanto você é ele (e você também sou eu) e estamos todos juntos. Pense ainda em porcos, milho, jardins e em pessoas que deixam a cara crescer.

Hoje não irei falar. Deixarei que os caras falem por mim. E estarei em boas bocas.




E que Phil Spector, figura de importância absurda na história na música mundial e personage chave em grandes momentos da história dos Beatles, juntos - como em "Let It Be" - ou não - como em "All Things Must Pass", do George Harrison -, encontre alguma paz de espírito.

Tempo para isso ele terá. Afinal, 19 anos na prisão são quase 7 mil dias.

Que merda.


quinta-feira, 28 de maio de 2009

Não Quero Dizer Mais Nada

Letra: Marcio Teixeira de Mello

Vamos lá
Como assim?
Preciso mais de você do que precisa de mim

Como vai?
Vou assim...

Qual lugar?
Logo assim?
Nada pode me deter
Mas claro que pode, sim

Como vai?
Tão ruim...

Eu quero dizer que sim
Eu quero dizer, enfim
Não quero dizer mais nada
Esse mundo é uma piada

Vamos lá
Como assim?
Eu preciso que você agora precise de mim

Como vai?
Vou assim...